Resenhas

Resenha: Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Autor: Graciliano Ramos

Editora: Record

Páginas: 176

Sinopse: Vidas secas, lançado originalmente em 1938, é o romance em que mestre Graciliano — tão meticuloso que chegava a comparecer à gráfica no momento em que o livro entrava no prelo, para checar se a revisão não haveria interferido em seu texto — alcança o máximo da expressão que vinha buscando em sua prosa. O que impulsiona os personagens é a seca, áspera e cruel, e paradoxalmente a ligação telúrica, afetiva, que expõe naqueles seres em retirada, à procura de meios de sobrevivência e um futuro.

Apesar desse sentimento de transbordante solidariedade e compaixão com que a narrativa acompanha a miúda saga do vaqueiro Fabiano e sua gente, o autor contou: “Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão… os meus personagens são quase selvagens… pesquisa que os escritores regionalistas não fazem e nem mesmo podem fazer …porque comumente não são familiares com o ambiente que descrevem…Fiz o livrinho sem paisagens, sem diálogos. E sem amor. A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não tem tempo de abraçar-se. Até a cachorra [Baleia] é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos”.

Vidas secas é o livro em que Graciliano, visto como antipoético e anti-sonhador por excelência, consegue atingir, com o rigor do texto que tanto prezava, um estado maior de poesia.

Há quanto não se via uma resenha por aqui, não é mesmo? Já estava com saudades de falar mais sobre os livros que estava lendo com vocês! Então, vamos à resenha!

Sabe aquele livro que você não dava nada, esperava que seria só mais um, mas que acaba te surpreendendo? Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Já fazia várias semanas, meses até, que eu estava lendo vários livros porém não conseguia terminar nenhum, até que comecei a ler este e me senti verdadeiramente presa à história.

Começando pela mudança de Fabiano e sua família para outra fazenda, deixando a em que trabalhava antes para fugir da seca e buscar melhores condições, somos logo introduzidos a pequenos outros capítulos, não lineares, que nos mostram um pouco de cada um dos personagens, por meio de situações do seu dia a dia. São eles:

  •  Fabiano: vaqueiro, considerado um homem bruto, de pouca instrução, e que não sabia ler nem escrever, e ora sentia-se como bicho, ora como um verdadeiro homem;
  • Sinha Vitória: a sua mulher, que parecia ter tido certa educação na infância e era quem mais sabia entre os integrantes da família;
  • Menino mais velho: o mais curioso e portanto que tinha mais interesse em saber das coisas, e questionava mais a mãe;
  • Menino mais novo: que queria ser como o pai, e desejava surpreende-lo sempre que pudesse;
  • Baleia: a cachorra, que sempre os acompanhava, e que mais se assemelhava a um ser humano.

São 13 capítulos, desconexos entre si, com a exceção do primeiro e do último – ao lerem entenderão o porquê -, que contam pequenas situações que se passam na vida deles e nos mostram como é difícil e precário o modo em que eles vivem. Separados da convivência da cidade, sentindo-se deslocados na mesma, e sendo explorados pelas autoridades, como no caso do Soldado Amarelo, e na do patrão de Fabiano.

“- Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. 
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.”

Por não falarem muito, e se comunicarem na maior parte das vezes por meio de grunhidos e expressões quase inaudíveis, que em muito se assemelham a animais, há poucos diálogos e sim, mais narrações do autor em 3° pessoa, transmitindo para nós o que se passava na mente de cada um dos personagens e o que eles, realmente, gostariam de expressar.

É, de fato, muito interessante os temas abordados pelo autor, e a forma como ele o faz, com a presença de regionalismos e uma linguagem simples, e seca, como a vida dos personagens, levando-nos a refletir sobre o modo como essas pessoas são tratadas, como elas se sentem, e as condições em que são forçadas a viver, não tendo educação e mal um teto para se abrigar, sempre dependendo do local onde trabalham.

“Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.
– Está aí.
Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.”

– Capítulo 2

Certamente, um grande clássico da segunda fase do Modernismo brasileiro, e que deveria ser lido por todos. Além de ser curto, e de poder ser lido em pouco tempo, essa é uma ótima história para se aventurar em meio ao sertão nordestino, e aprender um pouco mais sobre a região.

Classificação: 

Onde comprar: Amazon, Saraiva.

E é isso, espero que tenham gostado! O que acham de mais resenhas de clássicos da literatura brasileira? Já leram esse livro? Me contem nos comentários, ficarei muito feliz em saber!

1 Comment

  1. Jady Santos

    April 12, 2018 at 3:13 PM

    Nunca li nada do autor, mas este é um daqueles livros que ouvimos falar tanto na época da escola que criamos um certo preconceito por achar que livros clássicos brasileiros são todos chatos e sem graça.
    Porem de um tempo pra cá venho ne desfazendo de varios preconceitos literários e da vida tambem, manter a mente aberta vai nos fazer ser pessoas melhores e aproveitar mais a vida.
    Sobre o livro, gostei muito da resenha e pelas pequenas partes do texto que li, acho que o livro vai me surpreender.
    P.S. Estou amando seu blog, é muito bem feito e todo bonito e Arrumado. Parabéns.
    Beijos, Jady.

    Garota, Era uma vez
    http://garotaeraumavez.blogspot.com.br/

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